Aproximações da Conjuntura N.1: Sobre desilusões, recalque e anti-petismo

A elegibilidade Lula antecipou o debate sobre a corrida presidencial de 2022, algo completamente compreensível diante da catástrofe instalada no país.

Alguns dizem com razão que “há muita água para correr debaixo da ponte” até lá. O problema é que não são exclusivamente as organizações políticas que definem a pauta da sociedade. Quando as notícias de uma eventual candidatura do ex-presidente é veiculada, o povo entrou no jogo de novo; e claro, a esperança de sair do pantâno fez todo mundo se mexer. 

Setores à esquerda inauguram uma série de avaliações sobre o passado, a fim de se posicionarem sobre “o que fazer” frente a um retorno de Lula ao jogo eleitoral. 

Quero retomar algumas teses que elaborei anos atrás sobre a questão do PT e que acho pertinentes para o presente momento. Apresento neste texto uma delas.  

A esquerda fora do PT precisa superar o petismo dentro de si, para que possam ter um destino próprio, inclusive para estabelecer uma relação construtiva com o  Partido dos Trabalhadores. 

A resistência em relação ao PT é fruto de uma atitude de desilusão, e só se desilude quem está iludido, quem superestimou o projeto petista.  O anti-petismo é uma expressão da desilusão e não uma posição política autônoma, com capacidade de definir sua própria agenda e projeto.  

O Partido dos Trabalhadores é um partido da ordem, é parte fundante da estrutura do arranjo político da Nova República e acumulou força dentro do sistema de competição instituído pela mesma. Não questionou a forma de distribuição de vantagens entre as classes, mas se concentrou no atendimento de parte das demandas distributivas. Logrou êxito no que se propôs a fazer, se tornando a principal representação simbólica e política dos setores subalternos mais avançados. Tem gente que esperava mais, que atuava para que este partido fosse mais longe, atitude legítima, mas não se pode fazer um julgamento político com base em expectativas. 

Para alguém que não compartilha origens petistas  – ou, que mesmo as tendo já as superou no campo político, teórico e prático – as expectativas dos filiados e ex-filiados do PT não são base sólida de análise deste partido.   

O PT, portanto, é um ator relevante, e qualquer organização política que  tenha como objetivo atuar junto às camadas populares terá necessariamente de estabelecer um padrão produtivo de relação com o mesmo. A negação desta necessidade diz mais sobre a insegurança política de certos grupos, do que de sua afirmação como alternativa ao petismo. 

Afirmou que o anti-petismo de esquerda não se emancipou da ideologia petista, não produziu uma manifestação alternativa no campo da formulação teórico-política, da prática e da teoria de organização. Nem mesmo uma gramática militante nova foi capaz de elaborar.“O projeto original deve ser reestabelecido” dizem alguns; resposta fácil para quem não tem um projeto para agora. Reivindicam a pureza, o retorno à inocência perdida; belos sonhos. 

O PT é o que é, com seus limites e com suas virtudes. Aceitar isso será emancipador para alguns. É um partido, entre tantos outros, que pode contribuir para a superação do pântano fascista, da fome, da morte e do desemprego. Nada além disso, mas isso é quase tudo para a maioria do povo neste momento.  

Acredito que quem tem política própria e uma estratégia definida, não teme nenhuma aliança. Acredito que a situação concreta, o momento atual,  é o ponto no qual a política se expressa como prática. Desejar é fácil, os desejos e intenções são ilimitados, porém os recursos políticos, ou de qualquer natureza, são sempre finitos. Alinhar os desejos aos recursos é o que separa os profissionais dos amadores. Não escolhemos aliados, estabelecemos alianças necessárias, essa é a condição para reunir forças suficientes para atuar na situação. 

Obviamente que isso não é fácil, mas deixaremos as facilidades para outros, aqueles que entorpecidos pela vertigem de pequenas alturas, darão nota baixa para os que se movem no terreno. Radicalizarão em estreitos corredores, dormirão depois tranquilos, terão grandes sonhos em camas macias, protegidos por muros e por suas consciências pequeno-burguesas. 

Pedro Otoni . Cientista Político
9 de abril de 2021

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *